Da Irreflexão ao Mal praticável

Da Irreflexão ao Mal praticável

Se há uma coisa da qual não podemos discordar é que, dentre as diversas sapientias que a história, até o presente momento, pôde nos ensinar é que sempre há alguém que pensa e um outro que é pensado. Talvez possamos afirmar que este seja o eixo central que move a reflexão de Hannah Arendt (1906-1975) em Responsabilidade e Julgamento (1976).

Não é possível, todavia, discorrer acerca da referida obra sem que antes citemos aquela que, talvez seja uma das mais polêmicas da filósofa alemã, Eichmann em Jerusalém. Neste livro Arendt discorre acerca do julgamento de Adolph Eichmann, funcionário do governo nazista e responsável pela morte de milhares de pessoas. A atitude da pensadora, também de origem judia, gera uma gama de rancores por parte do povo hebreu que a acusam de defender o nazismo frente ao povo escolhido.

A questão que Hannah Arendt levanta, entretanto, é que a responsabilidade não é uma via de mão única, mas de mão dupla e, por este motivo, é que deve ser cobrada também daqueles que são vitimados – também injustamente. Neste sentido, a filósofa chama a atenção para aqueles judeus que possuíam uma certa relevância social diante das comunidades europeias e que colaboraram com os nazistas fazendo, inclusive, listas de prisioneiros que deveriam ser enviados aos campos de concentração.

Após esta obra e diante das repercussões que gerou, Hannah Arendt escreve uma série de conferências e aulas, a partir de um viés moral, que trata sobre a responsabilidade e a capacidade de julgar. Esta recebeu o nome de Responsabilidade e Julgamento, objeto do nosso trabalho.

O MAL É INEVITÁVEL?

A filósofa germânica apresenta como pressuposto da sua reflexão o fato de que se difundia na Alemanha da Segunda Guerra, e mesmo no pós-guerra, a convicção de que era impossível resistir a qualquer tentação. Esta mentalidade estava presente de maneira maciça em toda uma população, não treinada pelo Terceiro Reich, mas padecente de uma espécie de conformismo que corroía até os fundamentos do agir ético-moral. E, é constatando esta realidade que Arendt esforça-se por relembrar o dever de todo ser humano à responsabilidade, já que ser tentado a algo e ser forçado a algo são duas coisas completamente distintas, já que entre ambas existe um diferencial fundamental denominado liberdade.

Não é de maneira alguma possível, segundo a autora, dissociar o julgamento da responsabilidade e, é por isso que não apenas critica a carência na capacidade de um ser humano assumir sua responsabilidade, mas que esta mesma pessoa também padece de sua capacidade de julgar e isso, sem dúvida, incide em questão moral cuja problemática é seríssima.

Arendt, voltando seu olhar para o caso do nazista julgado em Jerusalém, indaga-se: como distinguir o certo do errado se a maioria ou a totalidade do ambiente já prejulgou a questão? E, em que medida podemos julgar acontecimentos ou ocorrências passadas em que não estávamos presentes? (cf. ARENDT, 2004, p.81)

Apesar destes problemas, algo de controverso insurge, pois é fato que, apesar de todos julgarem, ninguém possui o despudor de fazê-lo em público. Logo, num tribunal, por exemplo, julga-se e condena-se antes de se escutar as partes, pois talvez, se o juiz não o fizer será ele a vítima fatal da inúmeras vozes que gritam sem um rosto, sendo réu culpado diante do ato de não acordar com o preestabelecido por uma massa impessoal.

VOCÊ TEM “MORAL” PRA FALAR ALGUMA COISA?

Outra questão eminentemente latente pode ser resumida na expressão: não cuspa pra cima para que não caia em sua própria testa. A questão que se impõe neste momento é: como julgar se tenho culpa no cartório? Ocorre que, “no momento em que se propõem questões morais, mesmo de passagem, aquele que as propõe será confrontado com essa assustadora falta de autoconfiança e consequentemente de orgulho” (ARENDT, 2004, p.82).

É preciso ter a coragem de culpar, mas esta atitude só pode emergir a partir de um julgamento autêntico e não preestabelecido, onde se leva em consideração todas as partes envolvidas, evocando-se suas devidas responsabilidades. Dificilmente percebemos uma atitude como esta, já que o comum das coisas aponta justamente para a demonização do outro e para a negativa da auto-imputabilidade de erros morais e jurídicos. Um exemplo disto é levantado pela filósofa, ao afirmar que o Papa Pio XII, segundo a peça, O Vigário, de Rolf Hochhuth, é um dos principais acusados pela morte dos judeus no Leste, devido ao silêncio midiático do sumo pontífice. Arendt afirma que o problema de uma atitude como esta – de culpabilidade exclusiva – é que ou se desresponsabiliza os nazistas ou se abranda a culpa daqueles envolvidos na atrocidade de Auschwitz. Hitler e os seus são, assim, desculpados através da eleição de um bode expiatório.

Além da questão da culpa exclusiva chamamos a atenção também para a culpa coletiva. Todas as vezes que afirmo: “somos todos culpados”, desresponsabilizo a todos. Aqui se deixa transparecer algo fundamental na evocação da responsabilidade: a culpa só existe em sua individualidade. Neste sentido, a culpa coletiva, sem dúvida, constitui-se como uma falácia absurda. Não podemos mais acovardar-nos diante da atribuição da responsabilidade individual, ainda mais quando este indivíduo goza de prestígio social.

DIANTE DA MORAL NÃO HÁ ESCAPATÓRIA

Considerando as coisas deste modo concluímos que a responsabilidade pessoal é uma instituição social diante da qual não se pode escapar. Quando tentamos justificar de maneira abstrata os atos próprios ou de outros a partir do contexto, do zeitgeist, do complexo de Édipo ou daquele de Inferioridade, não conseguimos alcançar êxito e nossas justificativas permanecem meros devaneios da linguagem em vista de desviar-nos da responsabilidade diante da qual não podemos escapar. Esta instituição se chama moral. Esta não julga sistemas ou tendências, julga atos humanos de pessoas feitas de carne, osso e liberdade para escolher.

Afirmamos, então, com Hannah Arendt que, apesar da legalidade e da moralidade efetivarem o exercício do julgamento, não podem constituir-se como coisas idênticas. Na legalidade, posso ser eximido da responsabilidade perante um ato que a moralidade permanece a me cobrar, isto é, posso até não ser condenado a trinta anos de prisão, mas continuo sendo culpado pelos atos que competiam a mim a faculdade de escolher ou não.

Seria o povo hebreu tão vitimado como se nos é apresentado hoje? Seríamos nós tão inocentes diante do imperialismo que exerce tutela sobre nós através da mão invisível tão eminentemente culturalizada?

Bom, acerca dos judeus respondemos com nossa filósofa: para eles o ato moral é involuntário. Devido a isso, no meio das atrocidades dos campos de concentração e do império nazista, os judeus – no máximo – ofendiam-se com a atitude da Gestapo e “companhia limitada”, mas não se quedavam moralmente perturbados. Para os judeus, de maneira geral, os nazistas não propunham nada mais do que um problema político muito complexo. Na cabeça de um hebreu tudo aquilo que acontecia diante dos seus olhos era muito terrível, mas inexistia problema moral.

Agora acerca da segunda questão, não seríamos nós os principais responsáveis pela tutela opressora à qual somos submetidos? Sistemas políticos podem apenas tirar vantagem da nossa tendência a não pensar e não saber julgar. O mal pode não vir da malevolência desejada, mas de um conformismo habitual, oriundo de uma série de actus de irreflexão. Não nos deixemos enganar, o que mais nos deveria espantar são as atitudes dos amigos e não daqueles que se constituem formalmente como inimigos.

Thiago Pereira Domingos

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