Dar a outra face: um modo de evangelizar

Dar a outra face: um modo de evangelizar

No início do século passado, por volta de 1900, uma expedição francesa encontrou no Irã uma peça que contém o famoso Código Hamurabi, provavelmente de 1700 a.C. Um rei chamado Hamurabi constituiu um código de leis, dentre esses códigos um se tornou muito famoso, pois se trata do “olho por olho, dente por dente”, que Moisés veio a implantar para o povo hebreu. Alguns judeus ainda conservavam essa lei na época de Jesus. Tal lei, precisamente, significa que todo o mal que alguém causar, também deve receber esse mesmo mal. Trata-se da teoria da vingança.

A primeira vista parece que esse código é justo, mas na realidade pagar um mal com o mesmo mal, não resolve o problema, simplesmente causa uma sensação de ter feito justiça, mas na realidade a justiça não foi feita, na verdade uma injustiça causa outra injustiça, o que acaba virando um círculo vicioso de vingança e violência. Uma bola de neve que pode causar um grande estrago até se romper esse círculo vicioso. Jesus tendo consciência disso propõe a vivência do amar o inimigo: “se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda” (Mt 5,39b). Mas o que significa isso? Não parece que Jesus está nos ensinando a ser bobos ou sadomasoquistas? Porque é que não podemos revidar a uma agressão?

São Máximo, o confessor, nos explica que em nós existe uma tendência natural para o egoísmo (filáucia). Já nas crianças pequeninas podemos perceber tal egoísmo, quando uma criança não quer repartir o brinquedo com outra ela enche a boca para falar “é meu!”. Sendo assim, nosso instinto egoísta primeiro é buscar o próprio prazer, satisfazer as necessidades. Agora, existem necessidades que são verdadeiras e necessidades que são falsas. Necessidades verdadeiras são: matar a fome, matar a sede, estudar, descansar, trabalhar…, contudo essas boas necessidades podem se tornar más, depende de como vou orientá-las. As falsas necessidades são: não repartir, falar mal do outro, disputar posição, violência, sexo, drogas…, são necessidades que criamos, achando que se as realizarmos, alcançaremos a felicidade, uma mentira que contamos a nós mesmos. A comida realmente nos faz falta, ninguém pode viver sem comida, agora sem sexo qualquer um pode viver tranquilamente.

Por exemplo, no livro primeiro dos Reis no capítulo 21 temos a história do Rei Acab. Ele queria comprar a vinha de Nabot, mas era herança dos pais, e Nabot por ter uma relação afetiva com a vinha não quis vendê-la e deu uma má resposta a Acab. Logo, o rei Acab caiu triste, porque não tinha conseguido comprar. O rei criou uma falsa necessidade, mas como ele achava que tendo aquela vinha seria feliz, ficou triste. Típico do filho mimado que quando alguém diz não ele começa a espernear. A mulher querendo fazer as vontades do marido, trama o assassinato de Nabot. A imaturidade de Acab promove um homicídio e um roubo, porque ele toma a vinha de Nabot. Contudo, se continuarmos o texto vemos que aquela vinha só trás desgraça a Acab.

Quando Jesus diz que é para dar a outra face, não podemos compreender no sentido literal. Dar a outra face é mostrar o outro lado, o outro caminho. É dizer não ao caminho do egoísmo que gera violência, e dizer sim para o amor. Não podemos pagar a injustiça com a injustiça, mas sim a injustiça com a justiça. Quando pagamos com a mesma moeda as consequências são muitas. Podemos fazer a opção por dar uma resposta diferente à situação. Se alguém fez injustiça, então farei justiça para evangelizar o meu irmão e mostrar que o amor é a melhor opção sempre. Dar a outra face é evangelizar é mostrar que há um caminho cristão e que realmente garante a felicidade. Acab poderia ter entendido a Nabot, e ser sócio na vinha, ou mesmo poderia ter percebido que era mais importante para Nabot do que para ele.

 

Frater Rafael Vieira, SCJ

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